Hackers invadiram dados de 50 milhões de pessoas no Facebook

  • - 01 outubro, 2018 - Notícias

Empresa revela que hackers invadiram sistema e tiveram acesso a dados de 50 milhões de pessoas, mas não informa em que países. Para especialistas, novo incidente amplia crise de credibilidade da rede social

O Globo
29 Sep 2018
HENRIQUE GOMES BATISTA

Correspondente henrique.batista@oglobo.com.br

WASHINGTON

Já envolvido em escândalos de vazamento de dados, o Facebook informou que hackers atacaram as contas de 50 milhões de seus usuários no mundo todo. Ainda não se sabe que tipo de informação pode ter sido obtida pelos invasores, nem a identidade deles.

Uma nova falha de segurança no Facebook, que desta vez pode ter permitido o acesso irregular a 50 milhões de contas de usuários em todo o mundo, tende, segundo especialistas, a reduzir ainda mais a credibilidade da rede social. O Facebook, que vem perdendo usuários desde o escândalo por vazamento de informações da Cambridge Analytica, em abril, revelou ter sido vítima de hackers. Mark Zuckeberg, diretor executivo da empresa, disse que a investigação está em fase inicial, mas confirmou que o caso é grave. As ações do Facebook caíram 2,59%.

— Estamos levando isso muito a sério — afirmou ele ontem, em teleconferência. — Quando soubermos mais detalhes, contaremos.

A empresa descobriu o incidente na noite de terça-feira, após perceber “atividade pouco usual” em algumas contas. O FBI, a polícia federal americana, foi alertado. Por precaução, o Facebook está pedindo a 90 milhões de seus 2 bilhões de usuários que se loguem novamente na rede. Segundo a empresa, é uma precaução: esses 40 milhões adicionais podem ou não ter sido afetados.

Guy Rosen, vice-presidente do Facebook, afirmou em nota que ainda não é possível determinar que dados podem ter sido obtidos, nem quem está por trás do ataque. “Ainda temos que determinar se essas contas foram mal utilizadas ou se alguma informação foi acessada. Nós também não sabemos quem está por trás desses ataques ou onde os invasores estão localizados.” Rosen ressaltou que, assim que a empresa tiver mais informações, estas serão repassadas aos usuários.

Segundo o Facebook, os hackers exploraram uma vulnerabilidade na função “Ver como”, que permite ao usuário ver como seu perfil aparece para outras pessoas. “Isso permitiu que eles roubassem tokens de acesso ao Facebook, que usaram para entrar nas contas. Tokens de acesso são chaves digitais que mantêm o usuário logado no Facebook, sem precisar digitar sua senha cada vez que acessa o aplicativo”, informou a empresa. Não foi informada a localização dos usuários, então ainda não se sabe se há brasileiros entre eles. A ferramenta “Ver como” foi retirada do ar enquanto a segurança é reforçada.

—As últimas notícias sobre como o Facebook violou a confiança dos usuários são preocupantes, mas, infelizmente, não surpreendem. Confiamos muito em empresas de grande porte que detêm informações pessoais. Mas o Facebook e outros gigantes da tecnologia dão prioridade aos lucros corporativos, enquanto nossa segurança pessoal continua comprometida —explica Will Potter, pesquisador de inovação da Universidade de Michigan.

EUA: 26% DELETARAM APP

O ataque é mais um fator a colocar em xeque a credibilidade do Facebook.

— Isso certamente afeta a credibilidade da empresa, que deve ver um processo de perda de usuários mais intenso — diz Fernando Santiago, advogado especialista em proteção de dados pessoais e sócio do Chenut Oliveira Santiago Advogados, que se divide entre São Paulo e Paris. —Mas as situações são diferentes. Todo mundo é sujeito a hackers. E, desta vez, o Facebook parece ter aprendido a lição e agiu de forma transparente. Mas, para grande parte dos usuários, é só mais um escândalo.

Uma pesquisa do Pew Research Center, divulgada no começo de setembro, identificou que 26% dos americanos deletaram o aplicativo do Facebook de seus celulares —patamar que vai a 44% entre usuários de 18 a 27 anos. O levantamento aponta que 42% dos usuários dos EUA reduziram a quantidade de vezes que checam a rede social, e 54% mudaram suas configurações de privacidade nos últimos 12 meses.

Além disso, esta semana os fundadores do Instagram, o americano Kevin Systrom e o brasileiro Mike Krieger, decidiram deixar a empresa, comprada pelo Facebook há seis anos, devido a conflitos com Zuckerberg sobre o futuro do app. E Brian Acton, o fundador do WhatsApp — também comprado pelo Facebook — disse à revista Forbes que se sentiu traído pelo fundador do Facebook: “Vendi a privacidade dos meus usuários”.